Em tempos profundamente marcados pela violência, do barulho das sirenes que substituem o canto dos pássaros e de um Estado que falha em garantir o básico, muitos brasileiros encontram na religião o que o mundo lhes negou: ordem, pertencimento e dignidade.
É nesse cenário que se desenrola o capítulo 2 de A Fé e o Fuzil, de Bruno Paes Manso, uma obra que investiga, com apurado senso jornalístico e sensibilidade sociológica, os cruzamentos entre violência e espiritualidade nas periferias das grandes cidades brasileiras.
Neste conteúdo, a partir de alguns repertórios socioculturais, vamos te ajudar a entender como a fé, a violência e a identidade se misturam nas periferias brasileiras. Vamos lá?
‘A Fé e o Fuzil’
O crescimento das grandes cidades brasileiras, envolveu um intenso êxodo rural ao longo das últimas décadas. A ruptura brusca de uma vida relativamente auto suficiente, onde se produz o próprio alimento e por identidades sociais fortemente ligadas a vínculos comunitários para uma vida baseada, no individualismo exacerbado e na competição desenfreada por dinheiro e status, provoca uma perda de sentido, marcada por uma crise de pertencimento e por um grande vazio existencial e material.
O indivíduo se sente cada vez mais solitário, diante da luta pela sobrevivência na famosa selva de pedra onde “Deus é uma nota de cem”.
O enorme desamparo material e existencial das periferias associado a ausência do Estado e de políticas públicas forma o combustível para o explosivo crescimento da violência urbana, diante da falta de ordem os justiceiros, grupos de extermínio e milicianos passam a exercer controle sobre esses territórios e a impor uma ordem violenta nesses espaços.
Afirma-se uma masculinidade urbana tóxica onde a liberdade e a rebeldia estão intimamente associadas a uma identidade violenta.
‘Sintonia’
Essa dinâmica é o pano de fundo da série Sintonia, da Netflix, que narra a trajetória de três jovens da periferia de São Paulo: Doni (funkeiro), Rita (convertida evangélica) e Nando (traficante). Cada um deles simboliza um caminho possível para a juventude periférica: a música, a fé e o crime.
A série mostra como esses mundos coexistem, se entrelaçam e às vezes colapsam uns sobre os outros. Em especial, o personagem Nando encarna essa masculinidade urbana tóxica, onde o respeito e a liberdade são conquistados pela violência e pela imposição de medo. A lógica da arma como poder absoluto substitui qualquer ideal de cidadania.
Rap nacional
Essa mesma percepção aparece nas letras dos Racionais MC’s, especialmente na música Capítulo 4, Versículo 3:
“Aqui na quebrada a vida é foda e o sistema é cruel
A selva de pedra quer ver nosso sangue no papel.”
O uso da violência como linguagem legítima se mistura com o desejo de ascensão social e com a ausência de perspectivas. A masculinidade, nesse contexto, se torna um escudo: para ser alguém, é preciso parecer invencível.
Outro trecho emblemático aparece em Homem na Estrada:
“Sem flagrante, sem chance, sem sangue, sem espaço
Sem família, sem moral, sem classe, sem respaldo…”
Aqui, uma perspectiva de vazio existencial e social se afirma na periferia e sem nada a perder, o jovem periférico transforma o corpo em escudo e a arma em voz.
Ciclo de violência
Em A Fé e o Fuzil, Bruno Paes Manso mostra como esse ciclo de violência muitas vezes é interrompido ou redirecionado pela fé — mas nem sempre de forma emancipadora. A conversão religiosa surge como alternativa ao crime, mas também como dispositivo de controle. O que se troca é a obediência ao “crime” pela obediência ao “pastor”.
A série Sintonia também apresenta esse dilema por meio de Rita, que encontra na igreja um porto seguro, mas também uma nova forma de disciplina moral. O culto e o tráfico competem pelo mesmo território simbólico: a mente e o corpo da juventude periférica.
Religião
É nesse contexto que a religião ocupa um espaço importante, a palavra-chave aqui é Metanoia, um termo de origem grega que significa “mudança de mente” — mas que, na teologia evangélica, representa uma revolução interior, um renascimento. O convertido passou a contar uma nova história sobre si mesmo.
Ele não é mais “bandido”; agora é o “ex-bandido”. Seu testemunho se transforma em prova viva de um milagre.Uma conversão que nasce da dor das perdas, das rupturas familiares, do abandono. Nas periferias, onde tudo é escassez e pressa, a fé surge como última fronteira de estabilidade.
A afirmação de uma ordem moral e espiritual criam uma espécie de refúgio simbólico, como crente pertenço a casa de Deus e a comunidade evangélica, aqui temos a afirmação de uma nova identidade social, além disso a valorização da disciplina e do autocontrole gera um processo de reeducação social que fortalece os processos de mudança. A conversão e a valorização dos testemunhos forma uma poderosa narrativa para a conquista de novas almas.
O testemunho de Rodolfo Abrantes
Essa dinâmica é claramente visível no testemunho de Rodolfo Abrantes, ex-vocalista da banda Raimundos. Ícone do rock nacional dos anos 1990, Rodolfo era símbolo de uma masculinidade rebelde, marcada pelo hedonismo, pelo uso de drogas e por letras provocativas.
Sua conversão ao evangelho foi uma ruptura pública e radical: deixou a banda, abandonou o estilo de vida anterior e passou a viver da música cristã e da pregação. Em seus depoimentos, Rodolfo frequentemente enfatiza o vazio existencial que sentiu no auge da fama, e como a fé lhe ofereceu um novo sentido, um “norte”.
“A conversão não foi uma mudança de comportamento, foi uma troca de natureza”, ele afirma em suas pregações.
Em meio aos repertórios sobre a periferia, alguns questionamentos
Bruno Paes Manso traz exemplos concretos, como o caso do tenente Pereira, integrante de grupos de extermínio financiados por comerciantes para “resolver” a criminalidade. Com um ego inflado pela sensação de impunidade e poder, Pereira declara: “Apenas Deus pode tirar a vida. Tire as letras D e S da palavra Deus, e ela vira… EU.” Uma frase que resume o delírio de onipotência que mistura fé, violência e masculinidade brutal.
O livro também aborda como esse processo de conversão — aparentemente individual — acaba envolvido em um projeto político mais amplo. A luta não é contra a estrutura social, mas contra o próprio “eu pecador”. A pauta deixa de ser redistribuição de renda e passa a ser a guerra contra os demônios, a homossexualidade, as drogas, o aborto. Assim, forma-se um eleitorado disciplinado, moralista, que elege aqueles que teoricamente o representam, como pastores e policiais.
Mas A Fé e o Fuzil também apontam caminhos alternativos. Mostra que fé não é sinônimo de alienação. Cita figuras como Marina Silva, cuja espiritualidade caminha com a defesa dos direitos humanos e da justiça social. Aponta para igrejas que acolhem, cuidam, tratam — como a Cristolândia, que atua com dependentes químicos em situação de rua.
O livro nos faz pensar: a fé liberta ou controla? A conversão é redenção ou reprogramação? No meio do caos, da selva de pedra, onde a vida vale pouco e a morte é rápida, talvez essa pergunta não tenha resposta simples. Mas ela precisa ser feita.
Texto por Por João Marcelo Torres
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