News Terra Negra – Atualidades: 7ª edição
Radar Global
Brasil
Brasil tem 10 anos para se "reposicionar geopoliticamente", diz livro
O livro "O Brasil, a Austrália e a China no Mundo em Evolução", dos autores Robert Laird e Kenneth Maxwell, afirma que o Brasil caiu na "armadilha das potências médias": depende demais do comércio com a China como fornecedor de commodities agrícolas e minerais, o que compromete sua autonomia geopolítica. Os autores comparam o caso ao da Austrália, que consegue manter maior independência nas relações internacionais. Como saída, defendem que o Brasil use suas reservas de nióbio e terras raras como vantagem estratégica, com uma política deliberada de minerais críticos e parcerias diversificadas — e dizem que o país tem no máximo dez anos para agir antes que a janela se feche.
💡 Conexão com o Enem
- Geopolítica dos recursos minerais: nióbio e terras raras como moeda de barganha geopolítica, tema forte em Geografia econômica.
- Repertório: dependência externa x soberania econômica, útil para redações sobre desenvolvimento e relações internacionais.
EUA criticam o Brasil e elogiam aliados de direita na América Latina por combate ao tráfico
Em relatório anual enviado ao Congresso americano, às vésperas da eleição presidencial brasileira, o governo Trump acusou o Brasil de "falhar em confrontar" o PCC e o Comando Vermelho, chamando o país de "centro de distribuição global de cocaína" — embora o Brasil nem conste na lista oficial de grandes produtores ou rotas de drogas. No mesmo documento, Trump elogiou abertamente aliados de direita da região: tirou a Venezuela da lista de países que falharam no combate às drogas, saudou a nova presidente do Peru, Keiko Fujimori, e destacou Javier Milei (Argentina), Daniel Noboa (Equador) e Nayib Bukele (El Salvador) como parceiros de sucesso.
💡 Conexão com o Enem
- Geopolítica e soberania: uso de pautas técnicas (combate a drogas) como instrumento de pressão diplomática e ingerência eleitoral.
- Repertório: alinhamento ideológico na política externa dos EUA para a América Latina.
Mundo
Ataque a oleoduto saudita expõe fragilidade do fornecimento global de petróleo
A Arábia Saudita fechou preventivamente seu oleoduto Leste-Oeste — que transporta de 4 a 5 milhões de barris por dia, cerca de 4% a 5% do fornecimento mundial — após um ataque aéreo atribuído a milícias apoiadas pelo Irã. No mesmo momento, os houthis tomaram a ilha estratégica de Perim, no meio do Estreito de Bab-el-Mandeb, reforçando o controle do grupo sobre o mar Vermelho. Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado há meses, esse oleoduto era a principal rota alternativa de exportação de petróleo do Oriente Médio — e sua paralisação já disparou os preços da energia, levando o diesel nos EUA a superar US$ 6 por galão.
💡 Conexão com o Enem
- Geopolítica dos chokepoints: mostra na prática como o controle de rotas estratégicas (Ormuz, Bab-el-Mandeb) impacta o mercado global de energia.
- Repertório de redação: conflitos regionais gerando efeitos econômicos globais (inflação, preço de combustíveis).
Japão bate recorde: pela primeira vez, mais de 100 mil pessoas com 100 anos
O Japão registrou 107.677 centenários em setembro, superando pela primeira vez a marca de 100 mil — recorde que já dura 56 anos de crescimento contínuo. Quase 90% são mulheres. Especialistas atribuem o fenômeno a uma dieta rica em peixe, vegetais e soja, à atividade física constante e a um sistema de saúde robusto. O recorde, porém, tem um lado preocupante: o Japão também enfrenta um declínio populacional histórico, com a taxa de fecundidade caindo para 1,14 filho por mulher — muito abaixo dos 2,1 necessários para repor a população.
💡 Conexão com o Enem
- Transição demográfica: o Japão ilustra o estágio mais avançado do envelhecimento populacional, tema recorrente em Geografia da população.
- Repertório: contraste entre longevidade e crise de natalidade, útil para redações sobre políticas públicas e previdência.
Como o Uruguai virou destino preferido de milhares de cubanos
Diante da crise humanitária em Cuba, milhares de cubanos têm migrado para o Uruguai por uma rota de mais de 7 mil km via Guiana — único país sul-americano que não exige visto de cubanos. Somente em 2025, as entradas de cubanos no Uruguai superaram as saídas em quase 15 mil pessoas, e 89% dos pedidos de refúgio pendentes no país vêm de cubanos. O fluxo cresceu depois que os EUA e a Nicarágua endureceram suas próprias restrições migratórias, fechando rotas antes mais usadas pelos cubanos rumo ao "sonho americano".
💡 Conexão com o Enem
- Fluxos migratórios e rotas alternativas: o fechamento de uma rota (EUA) redireciona fluxos migratórios para outros países.
- Repertório: crise humanitária, xenofobia e políticas de refúgio na América Latina.
Meio Ambiente
Aquecimento global rompe conexão climática de 400 anos entre os oceanos Índico e Pacífico
Um estudo do Woods Hole Oceanographic Institution, publicado na Nature Communications, mostra que a histórica conexão climática entre os oceanos Pacífico e Índico — que por 400 anos moldou padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica nos trópicos — está se rompendo de forma "excepcional". No passado, apenas grandes erupções vulcânicas, como a do Tambora em 1815, conseguiam enfraquecer temporariamente esse vínculo. Desde os anos 1980, porém, o aquecimento global de origem humana vem causando uma ruptura muito mais duradoura, o que compromete a confiabilidade de modelos usados para prever chuvas e eventos como o El Niño.
💡 Conexão com o Enem
- Teleconexões climáticas: oceanos distantes influenciando o clima global, tema de Geografia Física.
- Repertório: mudança climática alterando padrões que pareciam estáveis há séculos.
Governo Trump elimina limites de emissão de carbono para usinas a carvão e gás
A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA) revogou os limites federais de emissão de carbono para usinas termelétricas a carvão e gás, que exigiam corte de até 90% na poluição por CO2. O anúncio, feito pelo administrador Lee Zeldin durante reunião de ministros de Energia do G20 em Houston, também propõe retirar da EPA a autoridade legal para regular gases de efeito estufa do setor elétrico no futuro. Segundo a própria agência, a medida deve liberar 123 milhões de toneladas extras de carbono na atmosfera na próxima década — ainda que o setor elétrico dos EUA seja, isoladamente, o 5º maior emissor do mundo.
💡 Conexão com o Enem
- Política ambiental e negacionismo climático: desregulamentação como estratégia de política energética, tema de Geografia e Atualidades.
- Repertório: contradição entre discurso de "impacto insignificante" e dados científicos sobre emissões.
Epicentro
Cúpula do Brics: o fórum que quer reescrever a ordem global
O que é e como surgiu: o termo BRIC foi cunhado em 2001 pelo economista Jim O'Neill, do banco Goldman Sachs, para descrever quatro economias emergentes com alto potencial de crescimento: Brasil, Rússia, Índia e China. A primeira reunião oficial, em nível de chanceleres, ocorreu em 2006, à margem da Assembleia-Geral da ONU; a primeira cúpula de chefes de Estado aconteceu em 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia. Em 2011, a África do Sul entrou no grupo, que passou a se chamar BRICS. A ideia nasceu puramente econômica, mas ganhou contornos cada vez mais políticos ao longo das duas décadas seguintes.
Quem faz parte hoje: desde a cúpula de 2024, em Kazan, o bloco se expandiu para 11 membros, somando Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã aos cinco fundadores — reunindo sob o mesmo teto democracias, como Brasil e Índia, e regimes autoritários, como Rússia, China e Irã.
Objetivos estratégicos: o grupo busca ampliar a influência política e econômica do Sul Global, pressionando por reformas em instituições historicamente dominadas pelo Ocidente, como o FMI, o Banco Mundial, a OMC e o Conselho de Segurança da ONU. O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), criado em 2014 e sediado em Xangai, oferece uma alternativa de financiamento a projetos de infraestrutura fora do circuito tradicional.
Contradições internas: a diversidade política do grupo — democracias e autocracias convivendo no mesmo bloco — dificulta consensos em temas sensíveis, como direitos humanos e conflitos internacionais. Rivalidades regionais entre membros, como a disputa histórica entre Índia e China, também limitam a coesão interna, fazendo do BRICS um fórum mais unido em discurso do que em ação coordenada. Mesmo assim, o peso combinado dos membros — que já reúne mais da metade da população mundial — segue chamando a atenção de potências ocidentais, como os Estados Unidos.
Legenda do mapa
Sul Global e multilateralismo
"Sul Global" é o termo usado para designar o conjunto de países em desenvolvimento da América Latina, África, Ásia e Oceania, historicamente marginalizados na governança internacional dominada pelas potências ocidentais (o "Norte Global"). O conceito vai além da localização geográfica: representa uma identidade política construída em torno de interesses econômicos e demandas comuns por maior representatividade em instituições como ONU, FMI e Banco Mundial.
Já o multilateralismo é o princípio segundo o qual questões globais devem ser resolvidas por meio da cooperação entre múltiplos países, em fóruns coletivos, em vez de decisões unilaterais de uma única potência. Blocos como o BRICS se apresentam como expressão institucional dessas duas ideias: buscam ampliar a voz do Sul Global e defender uma ordem mundial mais multilateral, ainda que enfrentem contradições internas que limitam sua coesão política.
Testando o seu conhecimento
O BRICS, grupo que reúne economias emergentes como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, entre outros membros, defende reformas em instituições como o FMI, o Banco Mundial e o Conselho de Segurança da ONU, além de manter um banco de desenvolvimento próprio, o NDB.
As ações do BRICS descritas acima podem ser compreendidas, sobretudo, como uma tentativa de:
a) fortalecer o alinhamento automático de seus membros às decisões das potências ocidentais, garantindo maior estabilidade à ordem internacional vigente.
b) ampliar a representatividade do Sul Global na governança internacional e promover um modelo mais multilateral de tomada de decisões.
c) substituir integralmente as instituições multilaterais existentes por organismos exclusivamente controlados pela China.
d) reduzir a cooperação entre os países-membros, priorizando acordos bilaterais com os Estados Unidos.
e) consolidar um bloco exclusivamente militar, com o objetivo de rivalizar diretamente com a Otan.
Ver gabarito e resolução
Gabarito: B. O BRICS busca ampliar a voz política e econômica do Sul Global em instituições historicamente dominadas pelo Ocidente e defende que decisões globais sejam tomadas de forma coletiva — não impostas unilateralmente por uma única potência. A criação do NDB reforça esse projeto, oferecendo uma alternativa multilateral ao FMI e ao Banco Mundial.
Bizarrices Geográficas
Depois de isentar o uísque escocês por causa de um chá com o rei Charles, Trump libera agora o irlandês porque um golfista pediu "um favorzinho" num torneio no seu próprio campo. Moral: a política comercial dos EUA cabe no calendário de golfe do presidente.
Dicas
📺 Série: Dopesick (Hulu/Star+) — minissérie com Michael Keaton que reconstrói como a Purdue Pharma e o OxyContin desencadearam a crise de opioides nos EUA, do consultório médico às salas de reunião da indústria farmacêutica e às investigações da DEA.
📖 Livro: BRICS e o futuro da ordem global, de Oliver Stuenkel (Paz & Terra) — a análise acadêmica mais completa sobre a trajetória do bloco desde 2001, e se ele está construindo uma ordem paralela ou apenas reformando a atual por dentro.