Como o ritmo da vida moderna tem prejudicado o sono e impactado a saúde da sociedade?

sono e vida moderna

O sono está longe de ser um mero período de inatividade física ou mental, mas se constitui como um evento em que ocorrem inúmeras manifestações fisiológicas que garantem a manutenção da saúde em seus mais diferentes aspectos: metabólico, cardíaco, imunológico, cognitivo e até de sanidade mental. Desde os anos 1960, estudos revelam que indivíduos que dormem regularmente menos horas do que o recomendado (cerca de 8h por noite) apresentam maiores riscos, a longo prazo, de manifestarem diversos problemas de saúde (Gohari et al., 2024).

No entanto, a sociedade moderna impõe obstáculos ao sono de qualidade e tem produzido um verdadeiro exército de pessoas cronicamente privadas de descanso. Inúmeros fatores contribuem para essa condição, como o trabalho em turnos, o consumo excessivo de cafeína (por meio do café ou bebidas energéticas), a hiperconectividade em redes sociais, além de estresse crônico e ansiedade generalizada.

Até as mudanças climáticas podem produzir efeitos ainda pouco compreendidos mas, potencialmente, deletérios. Um estudo recente revelou que o aumento das temperaturas noturnas está relacionado à piora na qualidade de sono. A pesquisa mostrou que elas produziram uma média estimada de 5% mais horas perdidas de sono em 2019-2023 do que em 1986-2005, atingindo um recorde de 6% mais horas de sono perdidas em 2023 (Romanello et al., 2024).

Com as mudanças climáticas fazendo com que as temperaturas noturnas subam mais rapidamente que as diurnas em muitas regiões do mundo, o risco de resultados adversos para a saúde devido à má qualidade do sono está aumentando globalmente (Cox et al., 2020).

O mundo digital e a procrastinação do sono

O protagonismo das redes sociais aliado à onipresença dos smartphones e outros dispositivos móveis produzem efeitos de engajamento jamais vistos na história da sociedade moderna. Não apenas os jovens, mas todas as faixas etárias e classes sociais parecem ser presas fáceis para tamanha virtualização de suas vidas.

Um recente estudo transversal com adultos mostrou que o uso diário de dispositivos eletrônicos com telas antes de dormir foi associado a uma média de 50 minutos a menos de sono por semana e a uma prevalência 33% maior de sono de má qualidade, em comparação com aqueles indivíduos que relataram não usar telas (Zhong et al., 2025).

Fisiologicamente, podemos discutir que a emissão dos fótons por esses aparelhos são capazes de gerar uma potente inibição na produção de melatonina, que é o hormônio que sinaliza ao nosso organismo que é hora de dormir, confundindo o relógio biológico e atrasando a chegada do sono (Jia et al., 2025). Abre-se caminho, portanto, para que o sono deixe de se manifestar adequadamente.

Em paralelo, existe um poderoso componente emocional desencadeado pelas redes, e que tem na compulsão pela conectividade o seu eixo central, criando assim um círculo vicioso de estimulação cerebral em momentos inapropriados como próximo à hora de dormir.

Cada menção, curtida ou nova mensagem desencadeia uma pequena liberação de dopamina, o neurotransmissor do prazer, mantendo o cérebro em estado de excitação e alerta incompatível com o relaxamento necessário para o sono. Esse ambiente de recompensas rápidas leva a um fenômeno recentemente descrito como procrastinação do sono, em que as pessoas sacrificam conscientemente o descanso para continuar rolando a tela em busca de mais entretenimento ou conexão, mesmo sabendo que isso as prejudicará no dia seguinte (Magalhães et al., 2020).

O que fazer para melhorar a qualidade do sono?

A literatura demonstra que, além da quantidade de horas de sono, a má qualidade também tem impacto na saúde e está associada a diversos desfechos adversos a longo prazo, incluindo diabetes, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, obesidade, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (Nelson, Davis and Corbett, 2022).

No Brasil, um estudo observou que 76% dos participantes apresentaram ao menos uma queixa de sono, sendo mais frequentes em mulheres e com o aumento da idade (Hirotsu et al., 2014). Diversos fatores podem influenciar a qualidade do sono, como hábitos inadequados, insônia crônica, distúrbios respiratórios do sono, doenças associadas, distúrbio do movimento periódico de membros inferiores, uso de medicamentos e ambiente inadequado para dormir (Sateia, 2014).

O cuidado deve iniciar muito antes de nos deitarmos para adormecer. Manter uma rotina de horário para dormir e acordar, ter alimentação em horários regulares e a exposição à luz solar promovem pistas importantes para o funcionamento do ritmo circadiano.

Leia o conteúdo na íntegra: Ciência UFPR

Foto do post: Reprodução/frimufilms/Freepik

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