Principia, de Emicida: entenda a canção cobrada no Vestibular Seriado da UFMG

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A canção “Principia”, de Emicida, é a faixa de abertura do álbum AmarElo (2019) e uma das obras cobradas na primeira etapa do Vestibular Seriado da UFMG. A música funciona como um verdadeiro cartão de visita do álbum: apresenta os temas centrais da obra – tolerância, coexistência, ancestralidade, espiritualidade e amor – e traduz a visão humanista do artista sobre o Brasil contemporâneo.

A partir do rap, Emicida expande sua linguagem musical e incorpora elementos da MPB, do samba, das sonoridades afro-brasileiras e da música religiosa. Isso reforça o caráter híbrido e plural da canção, que dialoga com diferentes tradições culturais para refletir sobre intolerância, desigualdade e comunidade. 

Nosso conteúdo tem tudo o que o estudante precisa saber para compreender a obra, seu contexto e suas principais interpretações. Confira!

O rap como cultura de resistência

Emicida, cujo nome artístico faz um trocadilho com o sufixo “-cida” (“aquele que mata”, ou ainda, “o MC (emici) que mata com seus versos”), transforma esse sentido para afirmar que “sua arma é a palavra”. A metáfora, comum no rap, associa microfone e voz à força, resistência e combate à violência real.

O rap (rythm an poetry) enquanto cultura, nasce historicamente como expressão de grupos marginalizados, sobretudo populações negras e periféricas, tanto na América do Norte quanto na América Latina ou Europa. Emicida se insere nessa tradição, mas amplia seus horizontes ao dialogar com diversas linguagens artísticas e musicais, criando uma obra que ultrapassa o rap tradicional.

A proposta de coexistência

A mensagem principal de Principia é a ideia de coexistência entre pessoas, religiões, espiritualidades, tradições musicais, e histórias individuais e coletivas.

Em um Brasil marcado pelo aumento da intolerância religiosa – especialmente contra religiões de matriz africana, mas também contra minorias como muçulmanos, judeus e espíritas – a canção propõe o contrário: acolhimento, diálogo e reconhecimento da humanidade comum entre todos.

As participações especiais: Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira e Pastoras do Rosário

A pluralidade musical e simbólica de Principia se potencializa pela presença de três participações que carregam histórias e significados distintos:

Fabiana Cozza

Uma das cantoras mais importantes da música brasileira contemporânea, pesquisadora e profunda conhecedora das raízes do samba e da cultura afro-brasileira. Sua presença acrescenta densidade cultural, técnica vocal e forte vínculo com a tradição do canto negro brasileiro. É importante notar que sua voz vem acompanhada de tambores, estabelecendo uma conexão com o samba e a ancestralidade da música afrobrasileira. 

Pastor Henrique Vieira

Pastor batista, ativista, professor, escritor e político, conhecido por sua atuação progressista. Sua fala dentro da música funciona como uma pregação sobre amor, humanidade e tolerância, resgatando valores cristãos ligados à compaixão, ao acolhimento e ao cuidado com o próximo – contrapondo-se a discursos religiosos de ódio e segregação.

Pastoras do Rosário

Grupo formado majoritariamente por mulheres negras idosas da Comunidade do Rosário dos Homens Pretos da Penha (SP). Representam ancestralidade, resistência feminina, tradição afro-brasileira e a força histórica da mulher negra, figura central na formação cultural e social brasileira. A presença delas conecta a canção às raízes africanas que estruturam grande parte da música brasileira. O coro das pastoras, sem um discurso verbal, sugere a força da coletividade e, mais ainda, do matriarcado negro.  

Ancestralidade e espiritualidade

O início de Principia, com as vozes em coro das Pastoras do Rosário, remete diretamente à musicalidade africana baseada no diálogo solo-coro, comum nas práticas dos povos escravizados nas Américas. Dessa estrutura musical surgiram gêneros como blues, gospel, samba, capoeira, jazz e tantas outras expressões fundamentais da cultura negra.

Emicida utiliza ainda alusões religiosas e referências intertextuais, citando: Ubuntu (filosofia africana baseada na ideia de comunidade: “eu sou porque nós somos”), Salmos da tradição judaico-cristã, Jesus Cristo, Barrabás, Buda e Kirikou, personagem de uma animação africana que simboliza sabedoria, coragem e ancestralidade.

Essas referências reforçam a mensagem central: não existe hierarquia espiritual, mas sim um encontro entre diferentes formas de fé e de humanidade.

‘Tudo que nós tem é nós’: UBUNTU e a força da coletividade

O refrão, que troca a norma culta pela linguagem popular, reforça a ideia de que o maior tesouro de um povo é sua comunidade. Não são bens materiais que sustentam o ser humano, mas relações, vínculos, famílias estendidas, amizades, redes de apoio – elementos cada vez mais fragilizados em uma sociedade marcada por desigualdade e individualismo.

Essa mensagem dialoga com valores cristãos (“somos todos irmãos”) ao mesmo tempo em que ecoa a filosofia Ubuntu (“ninguém é nada sozinho”).

Denúncia das desigualdades brasileiras

Ao longo da canção, Emicida aponta contradições de um país rico, mas com enorme concentração de renda, fome, racismo e exclusão. Essa crítica aparece em perguntas retóricas sobre a injustiça de poucos acumularem muito enquanto tantos não têm o mínimo necessário.

Quando afirma que “no caminho da luz todo mundo é preto”, o artista propõe uma reflexão dupla:

  1. Todos somos iguais diante da luz espiritual, da condição humana e da necessidade de coexistência.
  2. É um gesto de empoderamento da negritude, reivindicando protagonismo em um país estruturado por desigualdades raciais profundas.

O amor como força transformadora

A participação de Henrique Vieira funciona como um sermão poético. Ele fala sobre o tempo, o amor e o perdão como bases para a construção de um mundo mais justo. Há neste trecho uma referência ao texto bíblico de Eclesiastes. Ao resgatar a figura de Jesus como símbolo de compaixão, solidariedade e acolhimento, ele reforça o sentido espiritual e humanitário de Principia.

A ideia final é simples e poderosa: o amor transcende religiões e pode unir aquilo que a intolerância tenta separar.

Como Principia pode ser cobrada no Seriado UFMG?

Além de ser uma obra musicalmente rica, ela oferece reflexões sobre diversidade cultural, intolerância religiosa, desigualdade social, identidade negra, ancestralidade, espiritualidade, coexistência e diálogo entre culturas.

É uma canção que permite ao estudante argumentar, interpretar, estabelecer conexões históricas e refletir sobre valores sociais, temas muito cotados para a abordagem da prova da UFMG.

É possível pensar também em questões sobre as referências intertextuais; a linguagem figurada; a oralidade e a variação linguística; o sentido simbólico das participações especiais e, finalmente, a correlação com as outras duas obras indicadas.  

Autor do texto: Flávio de Castro, professor de Literatura e Linguagens, escritor e pesquisador.

Saiba mais sobre as obras obrigatórias do Seriado da UFMG

Confira materiais gratuitos sobre as outras duas obras obrigatórias do Vestibular Seriado da UFMG:

Foto do post: Divulgação/Emicida

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