Pão e Circo, de Paulo Nazareth: entenda a obra cobrada no Vestibular Seriado da UFMG

pão e circo paulo nazareth

Entre as obras indicadas para a prova do Vestibular Seriado da UFMG, a ser aplicado em dezembro de 2025, está Pão e Circo, do artista mineiro Paulo Nazareth. 

A escolha retoma a tradição da universidade em propor análises críticas e interdisciplinares, unindo artes visuais, política, história e simbologia.

Este guia reúne tudo o que o estudante precisa saber para compreender a obra, seu contexto e suas principais interpretações – conteúdo essencial para quem vai prestar o Vestibular Seriado da UFMG.

Quem é Paulo Nazareth?

Paulo Nazareth é um artista visual e performático nascido em 1977, em Governador Valadares (MG), e criado na região metropolitana de Belo Horizonte. Negro, periférico e profundamente ligado às suas origens, Nazareth desenvolve uma produção artística marcada pela crítica às desigualdades, às estruturas de poder e às relações entre centro e periferia.

Formado pela Escola de Belas Artes da UFMG, o artista ganhou repercussão internacional a partir de 2010, especialmente com performances em que utilizava o próprio corpo como suporte da obra. Uma de suas ações mais conhecidas envolveu atravessar países carregando bananas em uma Kombi – gesto que ironizava estereótipos ligados ao Brasil e ao “Sul Global”.

Sua obra já esteve presente no Instituto Tomie Ohtake, MASP e no Museum of Contemporary Art Detroit, consolidando-o como um dos nomes mais relevantes da arte contemporânea brasileira. Recebeu ainda o Prêmio PIPA, considerado o principal reconhecimento da arte contemporânea no país.

O que é performance na arte contemporânea?

A performance é uma linguagem artística que incorpora o corpo, o tempo e a ação como elementos centrais da obra. Surgiu de forma mais consolidada nos anos 1960, com artistas como Marina Abramović, Allan Kaprow e Yoko Ono, que rompem com a ideia de obra como objeto físico e transformam o corpo do artista na própria arte.

Principais características da performance:

  • Corpo como suporte artístico: a presença física do artista é o elemento central da obra.
  • Efemeridade: muitas performances acontecem apenas uma vez e só permanecem por registros (vídeos ou fotos).
  • Provocação: a performance busca questionar normas, denunciar injustiças ou propor reflexões críticas.
  • Interação com o público: o espectador não é passivo; ele é provocado a interpretar, reagir e completar a obra.
  • Tensão e vulnerabilidade: o artista expõe seu corpo, remetendo a temas como risco, violência, fragilidade e resistência.

Em Pão e Circo, Paulo Nazareth utiliza o próprio corpo de maneira simbólica, transformando-o em suporte político e crítico.

A obra Pão e Circo, de Paulo Nazareth: descrição e elementos visuais

A obra consiste em três fotografias em que o artista aparece com pães posicionados sobre os olhos, ouvidos e boca – evocando simultaneamente:

  1. A política romana do “pão e circo”,
  2. A lenda dos Três Macacos Sábios,
  3. A performance como suporte crítico.

O artista veste roupas discretas, quase neutras, reforçando que o foco da narrativa visual não é o figurino, mas o corpo negro e seus significados sociais e históricos.

Os pães – chamados de pão francês em São Paulo e pão de sal em Minas Gerais – bloqueiam os sentidos do artista, fazendo referência direta às imagens tradicionais dos macacos que “não veem, não ouvem e não falam o mal”.

Pão e Circo: o conceito e sua origem

A expressão latina panem et circenses (“pão e circo”) foi cunhada pelo poeta romano Juvenal para criticar a relação entre governantes e plebe no século I. A ideia central é que o povo seria mantido anestesiado por meio de:

  • alimento (pão),
  • entretenimento (circo: lutas, corridas, espetáculos).

Juvenal criticava o que via como apatia popular: enquanto recebia mínimas compensações materiais e distrações, a população deixava de questionar a política. Com o tempo, essa crítica passou a apontar também para o papel dos governantes, que estrategicamente usam entretenimento e assistencialismos para conter tensões sociais.

No Brasil contemporâneo, o conceito é frequentemente mobilizado para criticar:

  • excessos de gastos com megaeventos (como Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016),
  • obras midiáticas de alto impacto, porém pouco efetivas,
  • programas assistencialistas usados de forma política,
  • eventos municipais caros em cidades sem infraestrutura básica.

A obra de Nazareth dialoga com essa crítica, inserindo-a no contexto brasileiro do início da década de 2010.

A lenda dos Três Macacos Sábios

Originada na filosofia budista e difundida no Japão do século XVII, a imagem dos três macacos representa princípios éticos:

  • Mizaru: não veja o mal.
  • Kikazaru: não ouça o mal.
  • Iwazaru: não fale o mal.

Tradicionalmente, a ideia é evitar a propagação da violência e da negatividade. Porém, em leituras contemporâneas, o símbolo ganha uma camada política: a recusa em ver, ouvir ou denunciar injustiças pode se tornar cumplicidade.

Assim, a imagem passa a simbolizar dois caminhos:

1. Ético:

Não espalhar violência, fake news, sensacionalismo ou conteúdos degradantes.

2. Crítico:

Denunciar quando o silêncio se torna omissão diante de abusos, violências e opressões.

Paulo Nazareth usa essa ambiguidade para provocar o espectador a refletir sobre seu papel na sociedade.

Interpretação da obra: silenciamento, alienação e crítica política

Ao combinar pão e circo com os Três Macacos, Nazareth cria uma crítica multifacetada:

O pão sobre os sentidos simboliza a alienação

A metáfora sugere que, diante de pequenos benefícios ou distrações, parte da população deixa de:

  • ver injustiças,
  • ouvir denúncias,
  • expressar críticas.

O corpo negro como denúncia social

O artista utiliza o próprio corpo para evidenciar que, na realidade brasileira:

  • pessoas negras são as que mais sofrem com políticas de silenciamento,
  • a exclusão estrutural é naturalizada,
  • a alienação coletiva agrava desigualdades históricas.

O diálogo com o espectador

Como toda performance fotográfica, a obra “olha de volta”: o espectador é interpelado a refletir sobre seu próprio silenciamento e sobre a tentação de aceitar “o pão e o circo” como compensação.

Contexto histórico da obra

Produzida em 2012, ela dialoga com os grandes eventos esportivos no Brasil (Copa 2014 e Olimpíadas 2016), marcados por obras bilionárias, ao mesmo tempo em que problemas estruturais continuavam sem solução.

Como a obra pode ser cobrada na prova da UFMG?

De maneira geral, Pão e Circo permite conexões com:

  • História: Roma Antiga, política do panem et circenses
  • Sociologia: alienação, hegemonia, populismo, desigualdades raciais
  • Filosofia: ética dos sentidos, moralidade, passividade diante do mal
  • Artes Visuais: performance, fotografia, corpo como linguagem
  • Atualidades: megaeventos, política nacional, mídia, assistencialismo

Portanto, Pão e Circo representa uma obra completa para análise em exames discursivos e questões interdisciplinares.

Autor do texto: Flávio de Castro, professor de Literatura e Linguagens, escritor e pesquisador.

Saiba mais sobre as obras obrigatórias do Seriado da UFMG

Confira materiais gratuitos sobre as outras duas obras obrigatórias do Vestibular Seriado da UFMG:

Foto do post: Divulgação/Paulo Nazareth

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