As pautas ambientais representam um dos principais debates contemporâneos, e no Enem de 2019, uma temática muito interessante foi elaborada. A questão que vamos aprofundar hoje conseguiu relacionar dois tópicos importantes: meio ambiente, no campo da geografia, e o conceito de ciência, no campo da filosofia.
Questões interdisciplinares desse tipo têm sido cada vez mais comuns em diversos vestibulares por exigir de você, vestibulando, a capacidade de utilizar o conteúdo estudado como uma habilidade, uma ferramenta de compreensão dos problemas atuais. Aqui você vai encontrar conceitos importantes da filosofia e perceberá como eles são mobilizados ao longo da questão!
Questão do Enem sobre geografia e filosofia
TEXTO I
Os segredos da natureza se revelam mais sob a tortura dos experimentos do que no seu curso natural.
BACON, F. Novum Organum, 1620. In: HADOT, P. O véu de Ísis: ensaio sobre a história da ideia de natureza. São Paulo: Loyola, 2006.
TEXTO II
O ser humano, totalmente desintegrado do todo, não percebe mais as relações de equilíbrio da natureza. Age de forma totalmente desarmônica sobre o ambiente, causando grandes desequilíbrios ambientais.
GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. Campinas: Papirus, 1995.
Os textos indicam uma relação da sociedade diante da natureza caracterizada pela:
A) objetificação do espaço físico.
B) retomada do modelo criacionista.
C) recuperação do legado ancestral.
D) infalibilidade do método científico.
E) formação da cosmovisão holística.
Gabarito da questão do Enem
O gabarito da questão é Letra A, pois o pensamento moderno estabelece uma nova relação com o mundo. Enquanto a ciência antiga era baseada na contemplação, no saber pelo saber, a ciência moderna cria a lógica da utilidade na produção do conhecimento. Os saberes deveriam estar conectados com a possibilidade de previsão e antecipação daquilo que até então eram as leis da natureza.
Entender essas leis da natureza possibilitaria o domínio do ser humano sobre ela, logo o espaço físico, na questão representado como o espaço natural, se torna um objeto que pertence ao ser humano. Porém, a gente pode ampliar a análise dessa questão para criar mais ferramentas de compreensão e domínio de conceitos filosóficos que podem auxiliar na compreensão da questão ambiental atualmente. Bora lá?
Confira a análise detalhada sobre a questão
Inicialmente vamos pensar no primeiro texto do enunciado. É um trecho da obra de Francis Bacon. O filósofo inglês é um dos grandes expoentes do empirismo moderno. Em sua filosofia, o autor busca superar a lógica de pensamento aristotélica dominante no pensamento europeu devido a força da filosofia escolástica na idade média. O pensamento do filósofo grego era tratado como autoridade quase inquestionável. As principais diferenças entre os dois autores residem na forma, intenção e natureza do que chamamos de conhecimento.
Dedução x Indução
O método dedutivo aristotélico consiste em estruturar o conhecimento de forma que se inicie de princípios gerais para se chegar a conclusões específicas. Sendo assim, através da observação cuidadosa e da categorização dos fenômenos naturais poderíamos chegar a conclusões sobre o funcionamento da realidade. Como exemplo disso temos o silogismo aristotélico mais famoso: Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal”.
Em contrapartida, Francis Bacon enfatizava a importância da experimentação empírica e da observação direta da experiência para construir o conhecimento. A partir da indução, se partiria de observações particulares para que na coleção de experiências se formulasse um princípio geral que não mais seria baseado no saber pelo saber aristotélico mas em um conhecimento que seria utilizado para melhorar a vida humana.
A filosofia baconiana buscava, em suma, criar uma forma de produção de conhecimento que conseguisse interferir na dinâmica natural do mundo, por isso o autor é um dos maiores expoentes do pensamento moderno e também da construção do método científico utilizado hoje em dia.
O segundo texto, porém, evidencia o impacto desse modelo de pensamento nos dias atuais. Como uma ideia pode impactar a forma como nos relacionamos com o mundo? Para entender isso precisamos recorrer a outro conceito filosófico importante, o de Ideologia.
Ideologia
Ter domínio do conceito de ideologia é fundamental para que possamos compreender o mundo em que vivemos. Pensar os passeios, interpretações e metamorfoses que esse conceito teve ao longo da história é de suma importância para conseguir interpretar o real. O termo aparece pela primeira vez após a revolução francesa, quando nas obras de Destutt de Tracy, o autor busca desenvolver uma ciência que estudasse a gênese das ideias e como elas interagem com a nossa razão, corpo, percepção e vontade.
Tracy compreendia que as ideias não estão em um plano metafísico – como apontado por Platão na construção do seu dualismo entre mundo sensível e mundo das ideias – mas são fenômenos naturais que surgem da relação entre o corpo humano e o meio ambiente. A ideologia portanto seria o campo de estudo das ideias.
Porém, em um dos seus discursos, Napoleão absorve esse conceito e o reinterpreta pela primeira vez de forma negativa. O imperador francês atribuiu aos ideólogos o motivo da crise francesa, ao depositar nas suas ideias um distanciamento do mundo concreto, o mundo como ele é.
Marx é o primeiro a absorver de Napoleão o sentido pejorativo do termo ideologia, ao compreender que a ideologia é a base para a construção de uma imagem invertida da realidade, uma falsa consciência, um ofuscamento daquilo que realmente existe. Augusto Comte, criador da teoria positivista, ampliou a compreensão do que é a ideologia ao dizer que pode ser também uma “opinião geral da época”, ou seja, o conjunto de ideias que guiam determinada região em determinada época.
O segundo texto, portanto, fala sobre como o sistema de idéias constituído nos separou da natureza e essa separação da natureza gerou a objetificação do que ela é. Vamos entender como isso aconteceu.
Revolução científica e Humanismo clássico
Durante a revolução científica europeia ocorrida entre os séc. XVI e XVIII, se constituiu uma nova forma de se enxergar o real e de se pensar a produção de conhecimento. Até então, o paradigma de pensamento era o aristotélico. Nessa perspectiva, a ciência antiga tinha como base para a sua produção o ato da contemplação. É o saber pelo saber. A produção científica antiga não visava um atributo útil para aquilo que se produzia. A contemplação do mundo objetiva apenas a descoberta do seu funcionamento.
A ciência moderna, influenciada principalmente por Galileu Galilei, buscava a matematização do mundo. O controle, a rigidez, a previsão e domínio da natureza se tornam os principais objetivos da produção do saber. Agora não se produz mais as ideias que visam o saber pelo saber. O conhecimento produzido precisa ser útil, precisa ter a possibilidade de utilização para o controle do real. Essa ideia é ainda mais desenvolvida por Francis Bacon, quando o autor cunhou a máxima que guia parte de toda produção científica até os dias de hoje: “Saber é poder”.
O conhecimento, construído não mais com a contemplação mas sim com a experiência, passa a ser então a possibilidade do ser humano se sobrepor a natureza, dominá-la, se tornar o rei de todo o planeta, é o antropocentrismo elevado à décima potência. Não somos mais parte de um todo, utilizamos nossa forma racionalidade para nos apartamos da natureza, para que sejamos senhores dela.
René Descartes e o cógito
Descartes, buscava através da sua filosofia estabelecer um método de produção de conhecimento que nos conduzisse a verdades claras e evidentes. Segundo o autor, o modelo de produção de conhecimento baseado na experiência poderia nos conduzir ao engano, ao erro. Para o filósofo francês, a razão poderia, por si mesma, chegar a conclusões mais seguras sobre a realidade. No seu texto “meditações cartesianas”, ele elabora o cogito cartesiano, o “penso, logo existo”.
Consequentemente, o filósofo cria a ideia de que existem no mundo duas substâncias independentes. A res cogitans (coisa pensante) e a res extensa (matéria). A primeira, tem o atributo do pensamento e não depende de nada além de si mesma para a produção de conhecimento, a segunda é algo que depende da outra para existir, é finita, inferior.
O dualismo cartesiano, criou uma cisão entre mente e corpo que foi explorada e se tornou base para todo modelo de exploração da natureza. O ser humano é a razão e a natureza é a matéria. Logo, o ser humano deixa de ser parte da natureza.
Noção de civilização
A razão defendida por Descartes não era qualquer tipo de pensamento racional, mas sim uma lógica de pensamento baseada em como a sociedade europeia enxergava o mundo. Ser racional, ou seja, ser civilizado, era buscar a dominação, a guerra, a força, a vitória da mente sobre o corpo.
Ser racional era a busca pela expansão, por riquezas, por honra e por glória. Ser racional era a busca pela acumulação e pelo trabalho exagerado. Consequentemente, ser racional significava ser europeu. Se mente e corpo, segundo as ideias do filósofo mais influente daquele período, estavam separadas, logo, a Europa se torna a mente do mundo. O eurocentrismo passa a ser base das relações. A modernidade, ao criar o império da razão, criou o império do sistema de ideias dos europeus.
Filosofia decolonial
Um campo do saber que tem se tornado cada vez mais importante é o da filosofia decolonial, dominar o que ela é uma das chaves de interpretação da questão. A Filosofia decolonial nos convida a repensar essa lógica de pensamento construída na idade moderna e a considerar outras formas de conhecimento e existência que foram historicamente silenciadas.
Ao valorizar os saberes tradicionais e as práticas sustentáveis das populações indígenas e afrodescendentes, por exemplo, a decolonialidade oferece uma alternativa ao modelo de desenvolvimento que está na raiz da crise ambiental. Ela propõe uma nova forma de pensar o meio ambiente, não como um recurso a ser explorado, mas como parte de uma rede interconectada de seres que coabitam o planeta.
Nos vestibulares, esse debate ganha relevância em temas de redação e questões interdisciplinares que abordam a crise ambiental e as desigualdades sociais. Cada vez mais, as provas exigem dos candidatos uma visão crítica e consciente sobre a relação entre colonização, desenvolvimento e meio ambiente.
Questões que tratam da destruição das florestas, do impacto das mudanças climáticas nas comunidades mais vulneráveis, ou da importância dos saberes tradicionais para a preservação ambiental, frequentemente aparecem nos exames. A filosofia decolonial, portanto, não é apenas um campo de estudo, mas uma ferramenta poderosa para entender e criticar as raízes das desigualdades ambientais e propor soluções mais justas e sustentáveis.
Para saber mais
O Enem e outros vestibulares têm buscado cada vez mais aproximar as humanidades para pensar o nosso mundo. Para isso, várias questões são pensadas na mesma estrutura da questão apresentada. Um texto do conteúdo da filosofia e outros textos que atualizam esse pensamento para problemas do cotidiano vigente. Conseguir desenvolver essa habilidade é fundamental para conseguir interpretar as questões que virão nos próximos vestibulares.
O domínio da matéria de forma conteudista já não é mais suficiente. Lembre-se, a nova Base Curricular Comum (BNCC) divide os conhecimentos por áreas do saber, sendo assim, questões interdisciplinares como essa vão cair cada vez mais vezes. No caso da filosofia, o mais importante é sempre dominar os conceitos. Estudar filosofia é entender os conceitos. Cada autor da filosofia vai buscar descrever o mundo através dos conceitos.
Reflita sobre o assunto
Agora, confira um vídeo preparado por nossa equipe sobre um assunto relacionado ao tema da questão, e que também pode ser cobrado no Enem.
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